• Lucão

A lembrança da dor é bem menor que a dor


Isso vale tanto para a dor da perda de alguém querido quanto a dor de um chifre.

Faz 3 anos que meu velho pai se foi, e a saudade, que antes doía mais, agora já é uma lembrança boa. Os defeitos também vão sumindo com o tempo ― o pai era acima da média, mas tinha as chatices ― e vão se tornando cada dia mais lembranças boas.

Chifre também é assim. Na minha juventude cheia de amores, fui corno algumas vezes ― quem diz que nunca foi corno só ainda não sabe, e isso é uma questão de tempo ou de interesse ― e em um dos namoros mais intensos, quando descobri que tinha tomado galho, chorei na posição de feto.

Foram dois dias nessa posição. Meus irmãos me aguentaram até o terceiro dia. Depois me tiraram de casa, mostraram que a vida não girava ao redor do meu chifre e, devagar, a vida foi melhorando. Hoje conto as histórias das traições achando graça.

A lembrança da dor é bem menor que a dor.

Outra dor que esqueço que tive foi a da caminhada que fiz pela Espanha. Morro de saudade do Caminho de Compostela. E quanto mais o tempo passa, mais me esqueço do quanto sofri ao caminhar 820 quilômetros em 31 dias. Hoje conto as histórias do Caminho como se tivesse ido na esquina tomar sorvete. Mas a verdade é que doeu demais.

Quando as pessoas vêm conversar comigo e dizem que acham que não conseguiriam caminhar tanto, eu digo que é besteira, que muita gente faz, de toda idade inclusive. Como se ela não fosse sentir dor alguma, nem chorar de cansaço ou ter pesadelos enquanto dorme com o corpo inflamado.


A verdade é que eu já fui duas vezes, em anos consecutivos. No primeiro, tive uma síndrome do piriforme, inflamação no músculo do glúteo, que machucou também meu nervo ciático. Tive que abandonar a caminhada na reta final. E sinto as consequências da inflamação até hoje: a perna ainda lateja e por isso preciso me alongar e tomar muito cuidado com os exercícios de lombar.

No ano seguinte, voltei e fiz todo o percurso. Não sem sentir muitas outras dores. A dor no pé é normal. Dá bolhas nos dedos. E dói o joelho também com as subidas e descidas. Depois, lá pelo décimo dia de caminhada, dá exaustão, vontade de desistir. Dizem que o corpo se acostuma depois desse dia e começa a se adaptar, mas é mentira. É uma tática psicológica para te dar um pouco mais de coragem para continuar.


Nesse segundo ano, além das dores nas pernas, tive uma amigdalite aguda. Em um dos dias mais críticos, não conseguia beber água. Tomava analgésicos e anti-inflamatórios, mas não faziam efeito algum.


No último minuto antes de desistir pela segunda vez, consegui ir ao médico, que me receitou antibiótico com anti-inflamatórios, drogas pesadas. Foi quando o corpo reagiu e voltei a ter esperança.

No 31º dia de peregrinação, depois de noites de sono sofridas com o corpo queimando, cheguei a Santiago.

Digo isso tudo porque me lembrei que ano que vem tem eleição. Que a gente não se esqueça dos galhos, das perdas, das dores que tivemos nessas centenas de dias de sofrimento.


Votemos em quem nos dê mais alegrias do que lembranças difíceis de esquecer.


Mas não se esqueça: a lembrança da dor é bem menor que a dor.



*Crônica do autor publicada no jornal O Popular

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