• Lucão

De onde vem sua inspiração?

Atualizado: Jan 15


Sem dúvida, é a pergunta que mais me fazem: "De onde vem sua inspiração?". E, sem dúvida, é a pergunta que os artistas e pessoas que trabalham com criatividade mais recebem. Eu costumo responder com uma brincadeira, que também é uma provocação sobre inspiração: "Pra onde vão as suas?"


Todo mundo tem histórias, acontecimentos, momentos que são inspiradores. Isso é inspiração. Prestar atenção a esses momentos. O problema é que quase sempre deixamos as histórias se perderem.


Pois inspiração é muito mais uma condição de estar atento ao que acontece ao redor do que, necessariamente, uma ideia que surge de repente. Essa visão sobre inspiração, que as pessoas pensam que os artistas têm e elas não, é uma ilusão baseada em falta de esforço e persistência. Os olhos não veem o trabalho que tem o artista para ser uma pessoa inspirada.


Dá trabalho ser uma pessoa inspirada. "É preciso estar atento e forte", porque o tempo todo um acontecimento banal pode se transformar em uma grande inspiração. Já revelei que certa vez, no dia de escrever a crônica periódica para o jornal que publico, acordei com preguiça, não querendo escrever. Até a última hora do meu prazo para envio, eu não tinha ideia do que escrever. Até que pensei no meu dia, na minha preguiça, e escrevi minha crônica homenageando meu modo de trabalho daquela crônica. Fiz uma "Ode à preguiça", que virou uma das crônicas que mais gosto.


Isso não quer dizer que todo texto que você escrever inspirado no seu cotidiano vá ficar bom. Mas quer dizer que quanto mais você prestar atenção ao que acontece à sua volta, mais fica fácil encontrar motivos para escrever. Digo por mim, que escrevo muito. São maioria os textos que não ficam tão bons, mas que são fundamentais para novos textos, para aprendizados, para o exercício da escrita em si... Escrever e experimentar também faz parte do processo de se "inspirar". Um texto não tão bom pode abrir caminho para um novo. Ou novos. É normal ter novas ideias a partir de ideias ruins ou antigas. Um erro, por exemplo, pode ser o caminho para um "acerto".


Uma das atividades que mais tenho feito em casa na pandemia é cozinhar. Não cozinhava tanto antes de enfrentar o isolamento social, me virava com o básico ou com os pedidos de comida pelo aplicativo. Nesse momento recluso no apartamento, a cozinha virou um lugar de aprendizado e experimentações.


No Natal, fiz minha própria ceia, conectado online com a família. Fiz ao vivo. E deu errado. Era um nhoque de banana da terra. Não acertei na quantidade da farinha, fiquei três horas online misturando farinha na massa até parecer consistente como nas fotos das receitas. Errei. Comi um noque massudo, de orgulho.


No outro dia resolvi repetir a receita para descobrir o segredo. E aprendi que a massa, pelo contrário, tinha que ficar macia, quase desmanchando. Pouca farinha. O segredo era usar farinha nas mãos e na tábua para cortar os pedaços do nhoque sem grudar nas mãos nem desmanchar. E voilá! Deu certo, ficou, modéstia à parte, uma delícia.


Uma receita leva a outra, um aprendizado leva a outro, uma inspiração leva a outra. O caminho da inspiração é uma jornada prazerosamente árdua. Deliciosa.


Então, ao invés de querer saber de onde vêm as inspirações das pessoas criativas, que tal se perguntar "onde estão as suas?". Procure-as. Mas vá devagar, vá com generosidade e calma, experimentando os "ingredientes". Com paciência você acerta a receita do bom texto e descobre o sabor que tem se inspirar cada vez mais.


Mãos à massa!






21 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo