• Lucão

De zero a cem em um segundo


Das dificuldades que os alunos da escrita mais apresentam quando me procuram para melhorar seus textos é a de lidar com a ansiedade.


Sim, não é a dificuldade com as palavras nem com as ideias nem com a gramática, mas com a própria ansiedade. Têm bom repertório de leitura, conhecem a gramática, mas escrevem pouco, desejando mais o futuro que o presente, mais a escrita do livro que nunca sai do que as primeiras páginas.


Sonham em ir de zero a cem em um segundo. Desejam sair do nada para o absoluto em um dia, do anonimato para as prateleiras da grande literatura em um instante. Mas isso não vai acontecer se o aluno não topar viver a grande jornada, a única possível e que realmente dá prazer.


Por isso, sempre digo que uma das ferramentas mais poderosas para a escrita é o autoconhecimento. Não o autoconhecimento de botequim, mas o de entendimento científico de si. Desta forma, para começar, também sempre indico que os alunos mais ansiosos busquem cuidar da ansiedade com profissionais gabaritados, psicólogos e, se for o caso, com psiquiatras também.


Não há dureza nessa minha dica, há uma experiência e um privilégio muito grande de ter nascido filho de uma psicóloga que me mostrou a vida inteira que quanto mais me conheço, mais domino e amplio minhas habilidades e as capacidades de desenvolver novos recursos.


Ter consciência sobre si e todos os sentimentos que carregamos é ferramenta poderosa para uma produção de texto consistente.

Com a ansiedade descontrolada, pulamos etapas importantes para o desenvolvimento de uma boa escrita. Deixamos de errar, de experimentar, de testar, de ser curiosos e de criar uma originalidade, que também podemos chamar de "estilo".


Com a ansiedade descontrolada, ou melhor, no controle da jornada da escrita, não enxergamos o que estamos escrevendo agora nem o que podemos aprender nesse momento. Miramos e caminhamos pelo futuro que nunca se realiza, que é só ideal. E deixamos de caminhar pelo presente, que é real e fundamental para se chegar a algum lugar. E que na verdade é onde mora o grande prazer de escrever.


São as descobertas que acontecem nesse presente que são os prêmios para quem escreve. Se jogar às dificuldades como quem busca entendê-las e superá-las é mais saboroso do que o próprio saber. É o prêmio.


Essa sensação de descobrir algo novo, de aprender um novo recurso, de acumular bagagens, é o que nos estimula a seguir. Então descubra.


Essa é minha dica mais importante sobre a escrita para quem está começando. Descubra-se. E seja paciente consigo.


É como já disse um poeta do sertão: nesse momento, "se errar, tanto faz".





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