• Lucão

Era uma vez


"Era uma vez..."


Muita gente aprende a escrever assim, imitando os contos de fada que lia ou ouvia na infância. A escola faz isso com as pessoas, ao invés de facilitar, dificulta a tarefa de passar nossas histórias para o papel.

Daí crescemos e na hora de mandar um e-mail do trabalho, fazer um resumo de um projeto ou concluir uma pesquisa na universidade, não sabemos como começar nem, muito menos, como terminar o texto.


O modelo de ensino que presenciamos hoje, voltado para as aprovações nos vestibulares, concursos e vagas de empregos não nos ajudam a contar as histórias do nosso jeito. Justamente a fórmula mais eficaz, por exemplo na literatura e nos filmes, nós não aprendemos a usar... A fórmula que vai deixar o texto mais interessante e gostoso de se ler: o nosso jeito único de escrever.


É comum travarmos em um texto e ficarmos horas numa tarefa que poderia ser realizada num instante e com prazer. Mas gastamos o tempo tentando caber numa forma, que não é nossa, que não nos representa, que imita outras pessoas e que não se assemelha em nada com a nossa voz. Não é o nosso jeito de contar histórias, por isso é tão difícil escrever assim.


Era uma vez um milhão de pessoas que não sabe o tom da sua própria voz. Normal.

A boa notícia é que para sair desse lugar difícil da escrita e ir para um lugar mais gostoso não é tão difícil quanto parece. É uma jornada que, dependendo do esforço, pode ser até bem curta.

Não há como escrever melhor sem enfrentar medos e inseguranças. É preciso se jogar de cabeça à tarefa da escrita, exercitando em cada texto essa busca pela voz autêntica.

Uma dica bem simples que pode ser o começo dessa descoberta de uma escrita mais autoral é tentar imaginar, antes de escrever o texto, como você começaria a contar a história que está prestes a escrever se estivesse sentado(a) num café com uma pessoa amiga. Qual a primeira palavra que sairia da sua voz? É uma expressão só sua? É uma palavra que você usa bastante? É um vocativo, tipo um "hein, escuta essa!"? Tem um jeito que é só seu que você usa para contar histórias aos amigos? Pois use-o.

Comece a escrever assim, como se estivesse sentado(a) num café conversando com alguém bem íntimo. Use suas expressões, seus cacoetes, só não "force a barra". Deixe o texto fluir. Se precisar, antes de escrever, grave você contando essa história a alguém. Depois passe a limpo o áudio para o papel.

Mas tenha um pouco de calma com o exercício. Fazer isso uma ou duas vezes não vai melhorar o seu texto imediatamente. Esse exercício é, quase sempre, muito eficiente para nos mostrar como nos comunicamos no dia-a-dia. E como a nossa escrita está distante do nosso jeito de contar histórias.


Num segundo momento, depois de exercitar a escuta da própria voz e de escrever bastante assim, é hora de lapidar um pouco mais esse texto, corrigindo vícios, repetições e possíveis erros de concordância, por exemplo.

Mas é um bom exercício para perdermos o medo de contar histórias como só a gente contaria. E também para elevarmos nossos textos diários a uma condição mais digna de escrita para, quem sabe, começar a alcançar novas posições na vida simplesmente escrevendo melhor.

E aí? Como vai terminar essa história de um adulto escrevendo? Previsível como um conto de fadas ou com um final surpreendente como você merece?


Boa escrita!

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