• Lucão

Escritores da estação chuvosa

Atualizado: Fev 27



Digo isso e repito sempre que posso sobre o processo de escrita: escrever bem leva tempo, mas é uma habilidade que qualquer um pode desenvolver bem se tiver paciência, bons hábitos e dedicação para estudar.


Dito isso, estava me lembrando que já faz vinte anos que escrevo, e que já experimentei bastante e também vi e ouvi muitas histórias sobre os processos de escrita. Mas hoje eu gostaria de conversar com vocês sobre uma coisa que ouço bastante. É sobre as dores.


Dizem (e são muitos que dizem por aí) que o escritor precisa sofrer para escrever bem. Escuto isso mais dos poetas que de outros escritores, mas virou quase que um preceito da escrita. Pois bem, aqui eu quero registrar que discordo absolutamente desse pensamento. E explico.


Sim, algumas pessoas que sofrem, que têm dificuldades na vida, conseguem escrever bem, passar as ideias de forma autêntica e bonita para o papel. Mas, da mesma forma, outras pessoas que também sentem dores, vivem dramas de qualquer origem, não conseguem escrever. Por quê? Porque escrita não tem a ver com sentir ou não sentir dor.


Dizer que é preciso sentir dor para escrever bem é o mesmo que dizer que para sair de casa é preciso chover. Não faz sentido, faz?


Quero dizer que eu, como escritor, gosto de sair de casa quando chove, porque acho os dias chuvosos bonitos. Mas é claro que tem lá seus problemas sair em dias de chuva, pois as atividades nesses dias são restritas. Na chuva, corro o risco de me molhar se não tiver um guarda-chuvas, ou de me sujar se estiver andando na calçada e um carro passar por uma poça de lama ao me lado, ou de me afogar numa enchente, ou de um raio cair sobre mim, ou que me atrase com o trânsito, enfim... São gostosos os dias chuvosos, mas...


Eu também gosto dos dias de sol. Neles eu posso sair sem o guarda-chuvas, posso andar a pé sem me molhar, sem que um carro me suje com uma poça de lama, sem o medo de que um raio me parta ao meio. Também posso me sentar numa praça e ler a céu aberto, posso inclusive ir para a piscina ou praia ou parque e tomar um sol. Tomar sorvete, cerveja ou caipirinha também combina com calor. Como também posso me cansar mais, posso passar raiva com o suor, posso me queimar e desenvolver doenças de pele...


Eu ainda não conheço a neve, mas adoraria poder dar um passeio pelas ruas de Nova York com as calçadas brancas, e visitar os parques, fotografar os cenários que vejo muito nas fotos e que mexem comigo. Talvez eu não aguente o frio, talvez escorregue no gelo e bata a cabeça e desmaie. Talvez eu congele um dedo. É possível também.


Em dias de ventania, coloco as roupas para secar. Ou fecho bem as janelas da casa para que minhas plantas não ressequem. Mas nunca vi de perto um tornado. Essa também é uma experiência que não preciso provar. Podem ser dias bonitos com as árvores estremecendo como no poema de Leminski: "As palmeiras estremecem. Palmas para elas que elas merecem."


É isso. Escrever é viver, experimentar todas as estações, desfrutar das características de cada uma delas. Limitar a escrita à dor é limitar-se a viver em uma só estação. O que eu digo, e que é muito importante e responsável dizer sobre a dor, é que ela precisa ser cuidada com atençao e responsabilidade. Eu me cuido há bastante tempo terapeuticamente falando. Sou filho de psicóloga e sempre fui estimulado a fazer terapia, a aprender a lidar com meus próprios dramas, a ter recursos para viver com saúde em todas as estações. Não é para não sentir dor que me cuido, mas para saber lidar melhor com as dores quando elas surgirem.


Não sei se preciso dizer mais para explicar o meu ponto, mas quero reforçar que a escrita não pode se limitar a um sentimento só. Não. A escrita mexe com todos os sentimentos. E é por isso que eu amo escrever e amo ler os escritores alegres tanto quanto os tristes (chamo de escritores todos os textos e não só as pessoas que escrevem). Amo Luis Fernando Veríssimo, Mario Quintana e Manoel de Barros, que escrevem com humor, ironia e muita brincadeira. Mas também sou apaixonado em Elena Ferrante, Adelia Prado e Eduardo Galeano, que brincam com as palavras para falar de sentimentos, muitas vezes, mais duros e tristes.


Por fim, acredito que a escrita é muito ampla para limitá-la aos dias de chuva. Escrever é viver as belezas de todas as estações.


34 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo