• Lucão

Estamos em obra


Ninguém me ensinou a escrever como escrevo hoje. Mas também não aprendi sozinho. Aprendi com os livros, de escritores e escritoras diversos, que me mostraram que as histórias mais comoventes são as que só nós mesmos podemos contar.


Por isso, hoje, independente se bem ou mal, tenho certeza de que escrevo algo valioso: o que ninguém mais poderia escrever. Isso não se aprende na escola, por que isso também não se ensina nas escolas. Mas deveria.


Estou falando de identidade, de autenticidade e de compreensão de si. Ou seja, de personalidade. De assumir, em tudo que escreve, a sua presença. Agora sei escrever assim, estando presente nos meus textos. Mas levou tempo, levou livros, levou coragem até que eu chegasse a esse lugar mais familiar a mim.


Não aprendemos a desenvolver uma escrita baseada em nós mesmos. Não aprendemos que as nossas histórias são valiosas e merecem ser contadas. Não aprendemos que são elas as histórias que estão nos livros. E que se contarmos através dos nossos olhos, nariz, boca, ouvidos e mãos, com a nossa linguagem, com certeza serão histórias como as dos livros dos autores e autoras que admiramos: únicas.


O que aprendemos, por uma sequência de fatos ruins — seja pelo excesso de conteúdo na nossa formação, que nos rouba o tempo de aprendermos sobre nós mesmos; seja pela carga excessiva de trabalho dos professores e sua baixa remuneração; seja pelo sistema que prefere formar braços robóticos a cérebros pensantes; ou seja por uma política que não prioriza pessoas, mas cêenepêjotas —, é a imitar os outros e a nos afastar de nós mesmos na escrita.


Foi assim que me vi quando descobri a minha escrita autoral: uma pessoa que perdia tempo imitando os outros. Hoje, só há tempo para ganhos. Todo tempo que gasto com as palavras, seja lendo ou escrevendo-as, é um ganho rumo à minha autenticidade. É uma caminhada de descobertas e espantos, que quanto mais eu avanço, mas encontro os meus tesouros.


Não há um curso de formação de escrita autoral extenso, como uma formação de nível superior. E nem sei se deveria ter. Deveríamos ter, antes dos cursos de escrita, cursos de formação de pessoas, onde aprenderíamos a desenvolver nossa autenticidade, não só na escrita, mas em todos os nossos pontos de contato com o mundo: os sons, as imagens, os sabores, os cheiros, os toques e, quem sabe, até as almas. Um curso que nos ajudasse a aflorar o que já está semeado em nós: nossa natureza. E que também ajudasse a potencializar nossa existência, para caminharmos por onde ninguém mais pudesse caminhar.

Escrevemos mal quando repetimos as fórmulas. Escrevemos bem quando quebramos os moldes e capturamos o leitor pela surpresa que nossa autenticidade provoca. Por não ter sido “treinado” assim desde pequeno, muitas vezes ainda caio na armadilha de repetir os moldes. É quando o meu texto míngua. Quando me jogo a uma história só minha, com palavras e frases que só eu poderia “dizer”, o texto se engrandece.


Essa crônica, em tom de autoajuda misturado ao de uma pequena biografia, é um pouco do meu peito pedindo espaço por aqui para encorajar, ao menos a mim mesmo, a explorar minhas exuberâncias.


Quem eu sou, ninguém mais poderá ser. E isso é uma grande obra.

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