• Lucão

Manda a boa!


A cena é a seguinte: Natal de 2019, você com a família jogando bingo, cartela cheia (ou seja, ganha quem completar todos os números da cartela). O jogo está rolando há um tempo, algumas pessoas começam a ficar por um número para completar a cartela, e aí começam a gritar "manda a boa! Manda a boa!". Reconhece esse momento? Pois bem, o que ele tem a ver com a escrita?


É que tenho certa pena de escritores da internet que ficam em suas redes sociais gritando "manda a boa", quando não têm ideia para escrever, pedindo aos seus seguidores ajuda para escolher um tema. Acho isso pobre, o contrário do que a escrita é. Então nem sei se eles são escritores.


O elemento fundamental da escrita, de qualquer escrita, é a surpresa. Bons textos são aqueles que não dizem o que vão fazer, aparecem de repente e quebram as expectativas. Esse é o papel do escritor, escrever para quebrar as expectativas do leitor, fugir do esperado em um texto. A boa escrita é essa que dá o presente ainda no papel de presente. E o leitor é a pessoa que abre o papel para descobrir qual é o seu prêmio. Qual é a magia do presente quando ele vem sem essa surpresa, sem o papel que envolve o presente, sem o mistério?


Escritores cantadores de bingo não comovem. Seus leitores mandam a boa e eles escrevem o que é esperado, na esperança de que seus seguidores "curtam" e "bombem" seu texto. Eu torço que sim, que o texto "bombe", exploda e suma de uma vez. Esse é o máximo que um texto encomendado pode provocar, uma chuvinha de "likes". Mas a comoção, que vem da surpresa e é fundamental ao texto, jamais.


Mario Quintana escreveu certa vez que não suporta os poetas comemorativos, esses que em todas as datas importantes do ano, aparecem com seus textos celebrativos. É Dia das Mães e lá vem o poeta com um poema: "Mãe, fonte de...". No Dia da Árvore, lá vem o poeta com "Mãe de todas as mães...". Quem suporta?.


É claro que as mães merecem homenagens. E é óbvio que grandes escritores já as fizeram com encantamento. Pois que então seja uma homenagem assim, como um presente envolvido em papel presente, que seja misteriosa e surpreendente. E não como quem pede a boa numa rodada de bingo.


Escrever exige esforço e conhecimento para encontrar o que ainda não foi escrito, descobrir o tesouro, achar a pérola, o verso que ainda não foi entregue ao mundo. A surpresa é elemento fundamental da escrita e deveria ser o único motivo de escritores se tornarem escritores: surpreender. Ou ao menos tentar, incansavelmente.


Se você é um desses escritores, eu sugiro: deixe o bingo para as festas de Natal. Ou então deixe a escrita para quem sabe entregar presentes.


Boas festas!












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