• Mola

O medo é a porta da coragem


Num sistema onde a gente aprende a buscar sempre o acerto, ou num sistema competitivo onde quase sempre só um consegue vencer, seja no vestibular, na vaga de emprego ou no concurso público, o erro é mesmo visto como algo ruim.


É assim que, desde pequenos, aprendemos a lidar com os erros, evitando-os, pois estão sempre ligados às derrotas, às perdas, aos fracassos...


Só que aí que crescemos e percebemos que não estamos prontos para criar, ter ideias e nos expressarmos com coragem. Porque aprendemos a ter medo de errar (desenvolvemos só o desejo de só acertar). Mas é como diz o ditado: "quem não arrisca, não petisca!" E o petisco de quem se arrisca é saboroso demais para não cometer alguns erros na jornada.


Não há criação sem erro. Não há criatividade sem atrevimento. Não há uma ideia nova que surja sem antes ter passado por diversas experimentações e "erros". Pois é assim que se cria, errando, experimentando e tentando bastante.


Adoro a palavra erro porque, para mim, o erro é tudo que sobra além do "acerto". Sempre penso no acerto como uma coisa só, um caminho só, uma palavra só, uma pessoa só num pódio solitário. E o erro nesse cenário é tudo que está ao redor, todas as pessoas, todos os cenários, todos os caminhos que levam ao pódio, todas as outras possibilidades. Nesse pensamento, ao menos a mim, o erro é muito mais legal que o acerto, pois é maior, é infinito.


Falando especialmente da escrita, é na infância que aprendemos a fazer as redações argumentativas de 30 linhas. E aí, se eu tenho uma ideia que resolve a história em 10 linhas, por exemplo, eu não arrisco, pois a professora me pediu as exatas 30 linhas. Ou se, ao contrário, minha ideia precisa de um pouco mais de espaço, pois é cheia de detalhes e outras histórias, eu também não me arrisco, pois a professora me pediu só 30 linhas.


A escrita sofre com as regras que aprendemos ainda na infância sobre o que é escrever. É por isso que temos medo de errar, de colocar nossas ideias no papel de um jeito diferente do que nos foi ensinado. E sofremos com o julgamento que ainda nem fizeram do nosso texto, mas que possivelmente farão pois "o meu texto não está no padrão que me foi passado".


Escrever não é isso. Ao menos agora que você já cresceu. Escrever é contar sua própria história, pela perspectiva que só você pode contar: a sua.


Quando perdemos o medo de nos revelarmos através das palavras e de explorarmos outros caminhos com a escrita, nos apossamos de um caminho que é só nosso. E isso é o que mais importa e mais tem valor para a escrita: autenticidade.


Autenticidade só se conquista com coragem e com muito erro. Experimentando e colocando no papel o que só você pode colocar, com o seu jeito único de dizer sobre o mundo, a vida, as histórias. Errar é vital. E eu diria mais: errar é poético.


Claro que escrever não é simplesmente transcrever as histórias ou as ideias que você tem em mente ou que já viveu. Esse é o primeiro, mas mais importante, passo da escrita: escrever muito, abrir o fluxo e jorrar nas páginas. Mas é evidente que a escrita também exige uma segunda camada de cuidado, que vem dos recursos que aprendemos sobre a língua, dos jogos de palavras, das técnicas de persuasão, do estilo que desenvolvemos...


Mas o que eu quero mais dizer nesse texto é que sem atrevimento, sem coragem, sem desfrutar dos seus próprios "erros", você não escreve. Primeiro é preciso se jogar, rabiscar e sujar bastante o papel, para só depois enxergar nesse mundo de palavras o que você pode trabalhar.


Travamos porque deixamos de fazer a primeira parte, da escrita atrevida, esperando que a segunda, a escrita mais limpa e "arredondada" aconteça. Esqueça.


Primeiro, se atreva! Tenha coragem e escreva bastante, sem medo de errar. Depois, só depois, comece a lapidar seu texto. Comece a encontrar os pequenos "acertos" (palavra que nem gosto mais). Encontre suas pepitas.


Tenho certeza que assim você vai escrever mais, se jogar mais à vida e descobrir muito mais riquezas no seu processo criativo do que se mirasse somente no acerto. Se jogue!


Erre! PS: No final de maio, Lucão, nosso professor aqui do Mola, vai dar uma oficina sobre esse tema, o erro. A Oficina do Erro é para quem quer perder o medo de errar e se jogar mais às ideias. Serão 2 aulões sobre esse tema. Veja mais no site do autor.


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