• Lucão

O prazer da leitura


Acho bonitas as histórias das pessoas que começaram a ler desde pequenas. As histórias dos escritores consagrados, normalmente, são essas, de criancinhas lendo antes de aprender a andar.

Eu não tenho essa história. Comecei a ler quando descobri que a leitura, ao contrário do que havia aprendido na escola, poderia me divertir, me fazer chorar, refletir, viajar para outros lugares.

É verdade que meus professores tentaram me dizer que ler era esse conjunto de prazeres, mas depois me aplicavam provas com questões objetivas, que roubavam minha subjetividade, característica elementar da leitura, do ser que interage individualmente com a obra. Nessa época, que me lembro pouco, a escola nos fazia buscar a resposta certa. Logo em um livro, que mais do que respostas, é cheio de perguntas.

Comecei a ler aos quinze ou dezesseis anos de idade, apaixonado por história. Me apaixonei pela matéria com professores contadores de histórias. Até cogitei me graduador historiador, mas fiquei com medo de ser professor nesse país. Mas a matéria da história me devolveu o prazer pelas historinhas. E meu início pelas viagens que havia nos livros começou comigo lendo um livro de histórias inteiro, capítulo por capítulo.

Depois fui descobrindo devagar o meu lugar como leitor, com os livros que me provocavam mais, as autoras e autores que mexiam comigo. Li muito contos do Sherlock Holmes, talvez tenha esgotado toda a bibliografia do Sir. Arthur Conan Doyle. Li também o que pude de Agatha Christie. Conheci a literatura Russa, a Alemã, viajei pelo mundo, até voltar ao Brasil. E como já contei muitas vezes, me enamorei pelos poetas e pelas poetas nacionais.

Mudei muito o meu gosto de lá para cá. Amadureci nesses anos de leitor. Virei escritor e a leitura ganhou até novo propósito: me fazer um autor melhor a cada livro lido.

Hoje ainda tenho mais orgulho do leitor que sou do que do escritor que estou me tornando. Sem desmerecer minha escrita, mas gosto muito de ler. E me descubro mais quanto mais aprendo sobre o meu prazer com os livros. Há um tempo descobri uma nova paixão na literatura: Elena Ferrante. Uma escritora italiana que não se revela, seu nome é um pseudônimo. Já a sua escrita é escancarada, revela as pessoas, seus conflitos, os dramas familiares... Uma escritora nem um pouco óbvia, apesar de falar do cotidiano.

Outro dia fui ler Domenico Starnone, outro escritor italiano, e fiquei intrigado com a semelhança da escrita desse autor com a de Elena Ferrante. Fui pesquisar na internet e a minha felicidade foi em descobrir que há suspeitas que os dois autores, Elena e Domenico, sejam um só.

É uma suspeita. Existe outra que diz que Elena possa ser a esposa de Starnone, uma tradutora de livros que também se dedica à escrita literária. Não importa. O que quero valorizar aqui é o amadurecimento do eu-leitor, que se descobre mais em cada leitura.

Não estou aqui nessa crônica querendo me exibir. É que hoje eu amo tanto os livros, que me dói que muitas pessoas não tenham acesso à leitura para descobrir-se mais.

É uma injustiça social que muitas pessoas ainda não sintam esse prazer.

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