• Lucão

Quem escreve com pressa demora a chegar


Hoje posso dizer sem medo de errar: a pressa é o que mais atrapalha a escrita.


Primeiro ponto a comentar sobre isso: escrever com pressa é o mesmo que comer com pressa. Mata a fome, mas também mata o sabor e pode dar má digestão, azia, gases.


Segundo ponto: só se desenvolve uma boa escrita com tempo. Não adianta ter pressa para aprender a escrever bem, a elaborar textos mais complexos, sofisticados ou refinados — como a poesia. A escrita só melhora com paciência e persistência.


Quem escreve com pressa demora a chegar, pois não percebe o próprio texto, não saboreia as palavras, não enxerga as dificuldades nem o que não está claro. Com pressa não há tempo para brincar com as palavras, trocá-las por outras melhores, usar as figuras de linguagem, . Ninguém brinca de verdade quando está com pressa.


Digo isso, e não é a primeira vez, pois é muito comum ver pessoas quererem desenvolver a escrita mas não terem a calma que precisam para aprender e melhorar. Escrita se aprende devagar, aos poucos, exercitando e aperfeiçoando sempre.


Não consigo lembrar quantos livros eu já li para hoje conseguir escrever com fluidez. Também não coloco mais na conta quantos cursos já fiz nem quantos textos tive que escrever para começar a enxergar o meu próprio texto e redigi-lo com clareza.


É devagar que se vai mais rápido na escrita, se é que vocês me entendem. Quanto mais aprendemos e aplicamos a questão do tempo na escrita, mais aprendemos. Pois é observando com calma nossas dificuldades que conseguimos superá-las, absorverndo novos recursos e eliminando vícios.


Quero fechar essa pequena crônica com exemplos simples da minha própria jornada, que já é longa (são mais de 20 anos aprendendo a escrever). Há pouco tempo reparei que eu usava muito os pronomes do caso reto, especialmente o "eu". E aos poucos estou eliminando ele dos meus textos. Não preciso tanto deles — antigamente escreveria "eu não preciso tanto deles". Não quer dizer que nunca mais irei usá-los, mas simplesmente que usava pronomes demais nos meus textos. Um vício. Outro vício que é meu: os advérbios. Para intensificar minhas histórias, gastava-os "bastante". Estou em busca do equilíbrio.


É com tempo que melhoramos a escrita. Lapidar a palavra é uma jornada morosa, há sempre o que mexer, o que mudar, o que aprender e usar para escrever novos textos. A escrita é um acumulado de camadas que vamos colocando sobre o texto para construir histórias com recursos novos.


Aprenda a ter paciência, mas estude sempre e pratique rotineiramente. Com o tempo você vai trocar a pressa pelo prazer de descobrir-se e revelar-se em cada novo texto.


"Um poeta com pressa é o primeiro a não chegar".


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