• Lucão

Saborear o presente e os presentes


Quero insistir nesse tema aqui com vocês por que é um dos mais importantes e que mais nos ajudam a construir uma trajetória gostosa, especificamente com a escrita. Mas também serve para a vida: o tempo.


Dou cursos de escrita há 5 anos. Não é tanto tempo, mas está longe também de ser um tempo muito curto para os dias atuais. Além do que, os cursos começaram em 2017, mas a minha jornada com a escrita é de 2001. Faz tempo que tenho essa ideia sobre o tempo.


Já tive alunos e alunas de perfis muito distintos. Já tive mais velhos, mais novos, maioria mulheres, mas homens também. Já tive alunos muito interessados, com boa bagagem, mas também já tive alunos novos, começando a conhecer as próprias palavras.


Confesso que tenho muita sorte com as pessoas que se inscrevem nos meus cursos. A maioria é gente interessada em fazer um mergulho gentil e profundo pelas palavras. E faz.


Mas também tem um perfil muito comum entre os alunos, que é o espelho dos tempos atuais: o dos ansiosos. Veja que não é novidade nos meus cursos, pois se eu disser "a pessoa ansiosa é a mais comum na nossa sociedade" também é verdade. A vida anda acelerada e as pessoas estão perdendo o freio.


Nada no mundo — mesmo que isso seja um clichê, vou dizer — se consegue, se conquista, se melhora, se desenvolve, da noite para o dia. Por que seria diferente com a escrita? Não sei. As pessoas querem fórmulas mágicas para acordarem escrevendo melhor, e se não conseguem, se frustram, se punem e, muitas vezes, até desistem das palavras. Uma pena. Mal sabem que este é o caminho para saborear a escrita: o tempo.


Mesmo não sabendo escrever muito bem, o que se vive no tempo da escrita vai ser sempre saboroso. São as surpresas que se descobre com o tempo que nos faz querer mais as palavras. Uma frase bem escrita no meio do caos de outras frases é um prêmio; uma crônica, mesmo que desorganizada, mas vista de longe, dá orgulho; um verso de um poema ou um poema inteiro, mesmo que ainda sem muito ritmo, dá a esperança e o desejo de escrever o poema seguinte.


É com tempo que se é premiado. É com tempo que se conquista o fôlego para o tempo seguinte. Quando descobrimos e saboreamos isso, conquistamos a segurança de escrever por toda a vida. Digo isso por mim, pois não me vejo fazendo outra coisa — mesmo que eu faça outras coisas —, a não ser escrevendo muito.


Penso bastante sobre isto: como estarei escrevendo daqui a 10 ou 15 anos, 20 ou 30? Como estarei escrevendo quando tiver a idade dos escritores que admiro hoje? A resposta é um otimismo enorme. Não é um otimismo de que estarei, simplesmente, escrevendo melhor, mas de que estarei escrevendo coisas que não poderia escrever hoje, que ainda não conquistei, que ainda não vivi. O futuro não é meu presente. Os meus presentes estão aqui, no tempo de agora, no desfrute do que estou vivendo neste instante.


Apesar de que o futuro é, sim, um presente... Um presente guardado para quando eu chegar lá. E quando eu chegar lá, o que poderei dizer aos que ainda não chegaram é: ame seu presente e seus presentes.




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