• Lucão

Você precisa "alucinar" a palavra



Quando digo que as palavras podem percorrer vários caminhos, me refiro a exatamente isso aqui: aos sentidos. Toda palavra tem dois ou mais sentidos. O primeiro, o denotativo, é o sentido literal, é o que ela quer dizer de fato, cravado no dicionário (digamos assim), é a forma mais objetiva que ela pode exercer. O oposto é o sentido conotativo, é o sentido figurado, é o da imaginação, das imagens, das figuras da palavra, dos vários outros sentidos que ela pode seguir.


Nós aprendemos isso na infância, nas primeiras aulas de português, os sentidos denotativo e conotativo. Mas aprendemos de um jeito tão duro que perdemos a clareza sobre o efeito dos sentidos no nosso texto e deixamos de usá-los. Isso dificulta e muito nossa capacidade de escrever poética ou literariamente, como alguns autores que admiramos fazem tão bem. Normal. Não se apavore. Agora é o tempo de aprender a usar os sentidos na prática, exercitando a escrita literária.


Eu gosto de reforçar sobre isso sempre que falo de escrita porque muita gente escreve, e até escreve bem, mas de um jeito hermético, preso exclusivamente ao sentido denotativo. Isso tem um impacto real sobre o texto, que consequentemente fica duro, fechado em si mesmo, sem possibilidades de outras interpretações.


E é aqui que se distingue bem quem escreve literatura de quem escreve outra coisa, na capacidade de dar outros sentidos para o próprio texto, ou de não deixá-lo tão fechadinho em si mesmo. É preciso figurar a palavra — viajar na maionese, em linguagem popular — para que o texto saia do comum. Normalmente, o texto óbvio é carregado de palavras com os sentidos trabalhados unicamente na denotação. As palavras são exatamente aquilo que são, sem margens para outras "imagens".


Pois vai uma dica: ler poesia é uma ótima forma de compreender a importância do sentido conotativo e de aprender a usá-lo. Mario Quintana, nosso poetinha da maior importância, escrevia seus versos abusando das conotações. No seu poema mais conhecido, fica evidente a importância de figurar: "Todos esses que aí estão / atravancando meu caminho, / eles passarão… / eu passarinho!". Essa expressão que ele inventa, "eu passarinho", não faz o menor sentido se tentarmos entendê-la ao pé da letra. Mas nós sabemos o que é um passarinho e também temos o verso anterior "eles passarão", do verbo passar, ficar para trás, que nos dá pistas para os outros sentidos. Juntando o verso anterior com a palavra "passarinho", compreendemos que há uma provocação de sentidos através da figura de linguagem chamada antítese. Passarinho é o oposto de passarão. O pássaro, voa, vai a muitos lugares, assiste do alto o mundo, é livre... E aí o verso ganha um sentido maior do que o literal. Ganha esse caminho de "eu vou voar, eu vou ser livre, eu avançarei ao futuro, ou não vou ficar parado aqui nesse passado, eu serei leve", enquanto vocês ficarão para trás.


Não quero teorizar tanto sobre o sentido denotativo e o conotativo, mas quero deixar essa provocação, de fazer você olhar para o seu próprio texto e avaliar se tem usado mais o sentido denotativo ou conotativo nas construções. Minha dica principal para ampliar os sentidos é se esforçar para criar essas imagens novas. Brinque com as palavras, desloque-as para lugares improváveis, de combinações novas, imagéticas. Uma segunda dica importante para ampliar sua capacidade de figurar, ou de trabalhar a conotação, é: leia muita poesia. Leia Paulo Leminski, Mario Quintana, Manoel de Barros, Adélia Prados e tantos outros poetas que sabem brincar com os sentidos das palavras.


Leia e pratique, nessa ordem. Quanto mais bagagem tiver e quanto mais você experimentar, mais naturaliza a capacidade de brincar com os sentidos.


Quero dizer que, com o tempo, vai ficar mais fácil de escrever assim.





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